Niterói

SÍNODO PARA A AMAZÔNIA, CONVOCADO PELO PAPA FRANCISCO, COMPLETOU O SEU PRIMEIRO ANO

Há um ano, no Vaticano, começava o Sínodo para a Amazônia, convocado pelo Papa Francisco. O portal da CNBB publica texto do padre Luiz Miguel Modino, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) no qual faz memória deste encontro e o relaciona ao magistério do Papa Francisco e à sua recente encíclica lançada: Fratelli Tutti. Confira a íntegra abaixo.

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O Papa Francisco considera o Sínodo para a Amazônia como um filho de Laudato si´. Depois de ler, ainda sem o devido aprofundamento, Fratelli tutti, ouso dizer que a nova encíclica recolhe muitos elementos presentes na reflexão do último Sínodo, que neste 6 de outubro completa um ano da abertura de sua Assembleia Sinodal. De fato, o último Sínodo pode ser considerado como uma ponte entre Laudato si´ e Fratelli tutti, até agora, os dois grandes escritos do Papa Francisco.

Tive a sorte de acompanhar de perto essa assembleia, desde fora, mas com suficiente informação do que sucedia dentro da sala sinodal. Como muitas das coisas que tem acontecido no pontificado de Francisco, o Sínodo para a Amazônia trouxe elementos novos na vida da Igreja. A primeira coisa, que eu sempre considerei de fundamental importância, foi o processo de escuta, desenvolvido no território ao longo de quase um ano, o que fez com que os participantes da assembleia tivessem elementos suficientes para fazer um bom trabalho. De fato, o Papa Francisco, agradecia no seu discurso ao início dos trabalhos da sala sinodal, o trabalho preparatório.

Na manhã do dia 7 de outubro, pois no dia 6 só foi celebrada uma missa na Basílica de São Pedro, a Amazônia e seus povos entraram na mesma basílica e inundaram com sua vida a sede pontifícia. Depois de uma oração inicial, que deixo de lado as rubricas vaticanas para assumir o jeito amazônico, começou uma procissão até a sala sinodal, onde Francisco, com um largo sorriso, caminhava no meio do povo, junto com os cardeais e bispos, mas também junto com os povos originários e as mulheres.

Tanto os indígenas como as mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da Assembleia sinodal. Dizem que os momentos em que eles e elas falavam, o Papa Francisco prestava especial atenção. Na verdade, foram os representantes dos povos indígenas e as mulheres quem melhor entenderam e assumiram aquilo que o Papa Francisco pediu no início da assembleia: “falar com coragem, com parresia, mesmo que tenham que passar vergonha, dizer o que cada um sente”.

Esse pedido do Papa Francisco é um elemento fundamental se a gente quer entrar num verdadeiro diálogo, onde todo mundo tem a oportunidade de falar, mas também a obrigação de escutar. Precisamente diálogo é uma das palavras mais presentes em Fratelli tutti, onde aparece 49 vezes e faz parte, junto com a amizade social, do título do capítulo VI, que pode ser considerado como o capítulo fundamental da encíclica. Trata-se de uma atitude que não nos leva a renunciar a nossas convicções, e sim a nos abrirmos a todos os que, com boa vontade, buscam juntos a verdade, como dá a entender o texto.

O diálogo é um elemento que abre o caminho da fraternidade, “um diálogo paciente e confiante”, como nos diz Fratelli tutti, “para que as pessoas, as famílias e as comunidades possam transmitir os valores da própria cultura e acolher o bem proveniente das experiências alheias”. Nesse sentido, podemos dizer que o Sínodo para a Amazônia, tem sido um instrumento de aprofundamento na realidade dos povos originários, que tem ajudado à Igreja a aprender um pouco a mais do que significa o cuidado da casa comum, “a partir do amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais”.

Querida Amazônia, num texto que é citado na nova encíclica, nos lembra que “a própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes, e o modo autêntico de a conservar não é um isolamento que empobrece”. A gente sabe como é difícil aceitar o diferente, algo que se fez presente no próprio sínodo. Nesse sentido, voltando ao discurso inaugural do Papa Francisco diante da Assemblei Sinodal, ele dizia que “ontem fiquei muito triste de ouvir aqui um comentário zombador sobre aquele piedoso senhor que carregou as oferendas com penas na cabeça, digam-me: qual é a diferença entre usar penas na cabeça e o “tricórnio” usado por alguns oficiais dos nossos dicastérios?”.

Fratelli tutti aborda o tema do diálogo social para uma nova cultura, colocando essa atitude como possibilidade de crescimento. Para isso o Papa Francisco faz um chamado a deixar de lado, “o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além”. Ao longo da história, inclusive desde dentro da própria Igreja, foram aplicados atributos humilhantes aos povos indígenas, até o ponto de considera-los pessoas sem alma. O Sínodo para a Amazônia tem ajudado a avançar num diálogo aberto e respeitoso, uma atitude assumida nas últimas décadas e cada vez mais presente na vida da Igreja.

Citando de novo Querida Amazônia, Fratelli tutti nos lembra que “num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos”. Essa disposição para trabalhar e lutar juntos tem sido assumida com força pela Igreja católica. Podemos colocar como exemplo o trabalho do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, no Brasil, e da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, além de muitos outros organismos eclesiais, que caminham de mãos dadas com as organizações e povos indígenas, afiançando uma aliança cada vez mais firme.

Tudo o vivido neste último ano, marcado pela pandemia da COVID-19, que tem como uma de suas causas nossa falta de cuidado com a casa comum, deve nos levar a tornar realidade, nem só na Amazônia como na Igreja universal e na sociedade planetária, o chamado à conversão que aparece no Documento Final da Assembleia que iniciou um ano atrás: pastoral, cultural, ecológica e sinodal. Mas também deve nos levar a sonhar com o Papa Francisco, um sonho social, cultural, ecológico e eclesial. Não esqueçamos que tudo está interligado, faz parte de um processo de discernimento, sempre cuidado pelo Papa Francisco, que nunca dá ponto sem nó.

Com informações e fotos do VaticanNews via CNBB

SÍNODO PARA A AMAZÔNIA, CONVOCADO PELO PAPA FRANCISCO, COMPLETOU O SEU PRIMEIRO ANO

Há um ano, no Vaticano, começava o Sínodo para a Amazônia, convocado pelo Papa Francisco. O portal da CNBB publica texto do padre Luiz Miguel Modino, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) no qual faz memória deste encontro e o relaciona ao magistério do Papa Francisco e à sua recente encíclica lançada: Fratelli Tutti. Confira a íntegra abaixo.

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O Papa Francisco considera o Sínodo para a Amazônia como um filho de Laudato si´. Depois de ler, ainda sem o devido aprofundamento, Fratelli tutti, ouso dizer que a nova encíclica recolhe muitos elementos presentes na reflexão do último Sínodo, que neste 6 de outubro completa um ano da abertura de sua Assembleia Sinodal. De fato, o último Sínodo pode ser considerado como uma ponte entre Laudato si´ e Fratelli tutti, até agora, os dois grandes escritos do Papa Francisco.

Tive a sorte de acompanhar de perto essa assembleia, desde fora, mas com suficiente informação do que sucedia dentro da sala sinodal. Como muitas das coisas que tem acontecido no pontificado de Francisco, o Sínodo para a Amazônia trouxe elementos novos na vida da Igreja. A primeira coisa, que eu sempre considerei de fundamental importância, foi o processo de escuta, desenvolvido no território ao longo de quase um ano, o que fez com que os participantes da assembleia tivessem elementos suficientes para fazer um bom trabalho. De fato, o Papa Francisco, agradecia no seu discurso ao início dos trabalhos da sala sinodal, o trabalho preparatório.

Na manhã do dia 7 de outubro, pois no dia 6 só foi celebrada uma missa na Basílica de São Pedro, a Amazônia e seus povos entraram na mesma basílica e inundaram com sua vida a sede pontifícia. Depois de uma oração inicial, que deixo de lado as rubricas vaticanas para assumir o jeito amazônico, começou uma procissão até a sala sinodal, onde Francisco, com um largo sorriso, caminhava no meio do povo, junto com os cardeais e bispos, mas também junto com os povos originários e as mulheres.

Tanto os indígenas como as mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da Assembleia sinodal. Dizem que os momentos em que eles e elas falavam, o Papa Francisco prestava especial atenção. Na verdade, foram os representantes dos povos indígenas e as mulheres quem melhor entenderam e assumiram aquilo que o Papa Francisco pediu no início da assembleia: “falar com coragem, com parresia, mesmo que tenham que passar vergonha, dizer o que cada um sente”.

Esse pedido do Papa Francisco é um elemento fundamental se a gente quer entrar num verdadeiro diálogo, onde todo mundo tem a oportunidade de falar, mas também a obrigação de escutar. Precisamente diálogo é uma das palavras mais presentes em Fratelli tutti, onde aparece 49 vezes e faz parte, junto com a amizade social, do título do capítulo VI, que pode ser considerado como o capítulo fundamental da encíclica. Trata-se de uma atitude que não nos leva a renunciar a nossas convicções, e sim a nos abrirmos a todos os que, com boa vontade, buscam juntos a verdade, como dá a entender o texto.

O diálogo é um elemento que abre o caminho da fraternidade, “um diálogo paciente e confiante”, como nos diz Fratelli tutti, “para que as pessoas, as famílias e as comunidades possam transmitir os valores da própria cultura e acolher o bem proveniente das experiências alheias”. Nesse sentido, podemos dizer que o Sínodo para a Amazônia, tem sido um instrumento de aprofundamento na realidade dos povos originários, que tem ajudado à Igreja a aprender um pouco a mais do que significa o cuidado da casa comum, “a partir do amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais”.

Querida Amazônia, num texto que é citado na nova encíclica, nos lembra que “a própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes, e o modo autêntico de a conservar não é um isolamento que empobrece”. A gente sabe como é difícil aceitar o diferente, algo que se fez presente no próprio sínodo. Nesse sentido, voltando ao discurso inaugural do Papa Francisco diante da Assemblei Sinodal, ele dizia que “ontem fiquei muito triste de ouvir aqui um comentário zombador sobre aquele piedoso senhor que carregou as oferendas com penas na cabeça, digam-me: qual é a diferença entre usar penas na cabeça e o “tricórnio” usado por alguns oficiais dos nossos dicastérios?”.

Fratelli tutti aborda o tema do diálogo social para uma nova cultura, colocando essa atitude como possibilidade de crescimento. Para isso o Papa Francisco faz um chamado a deixar de lado, “o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além”. Ao longo da história, inclusive desde dentro da própria Igreja, foram aplicados atributos humilhantes aos povos indígenas, até o ponto de considera-los pessoas sem alma. O Sínodo para a Amazônia tem ajudado a avançar num diálogo aberto e respeitoso, uma atitude assumida nas últimas décadas e cada vez mais presente na vida da Igreja.

Citando de novo Querida Amazônia, Fratelli tutti nos lembra que “num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos”. Essa disposição para trabalhar e lutar juntos tem sido assumida com força pela Igreja católica. Podemos colocar como exemplo o trabalho do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, no Brasil, e da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, além de muitos outros organismos eclesiais, que caminham de mãos dadas com as organizações e povos indígenas, afiançando uma aliança cada vez mais firme.

Tudo o vivido neste último ano, marcado pela pandemia da COVID-19, que tem como uma de suas causas nossa falta de cuidado com a casa comum, deve nos levar a tornar realidade, nem só na Amazônia como na Igreja universal e na sociedade planetária, o chamado à conversão que aparece no Documento Final da Assembleia que iniciou um ano atrás: pastoral, cultural, ecológica e sinodal. Mas também deve nos levar a sonhar com o Papa Francisco, um sonho social, cultural, ecológico e eclesial. Não esqueçamos que tudo está interligado, faz parte de um processo de discernimento, sempre cuidado pelo Papa Francisco, que nunca dá ponto sem nó.

Com informações e fotos do VaticanNews via CNBB

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