Niterói

“Qual a utilidade do meu Sangue?” – Eis o Homem…

Redação(Segunda-feira Santa, 15-04-2019, Gaudium Press) No dia em que a Santa Igreja contempla o perfeito holocausto oferecido pelo Divino Redentor ao Pai, somos convidados a meditar sobre o peso de nossos pecados nos sofrimentos de Jesus.

Meditemos, então, com o Monsenhor João Clá Dias, EP, sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, utilizando para isso o Evangelho segundo João (Jo 18, 1-19, 42).

Qual a utilidade do meu Sangue.jpg

I - "Eis o Homem!"

Com cuidado e delicadeza exímia a Santa Igreja estabelece a cerimônia da Sexta-Feira Santa, cerne de nossa devoção e religiosidade. Na sua sabedoria divina, na sua perfeição e no seu espírito imaculado escolhe o Evangelho da Paixão segundo São João, com o objetivo de iluminar e fortalecer a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo como Messias, verdadeiro Filho de Deus.

O texto de si é tão claro e eloquente que, no conjunto da Liturgia, nos permite meditar sem maiores explicações.

A par disso, por ser muito extenso impossibilita o comentário de versículo por versículo.
Pelo que nos limitaremos a ressaltar algumas passagens que ajudem nosso progresso na vida espiritual e façam compreender melhor a grandeza da Paixão, acontecimento central na História.

Adão no seu esplendor

"Eis o Homem!" (Jo 19, 5), anunciou Pilatos ao conduzir Jesus para fora do palácio, após a flagelação. Nosso Senhor estava ensanguentado da cabeça aos pés, coroado de espinhos, com uma cana de irrisão entre as mãos atadas, numa humildade plena, total, pois Ele é a Humildade. O Rei do universo, o Homem-Deus, era apresentado ao povo como "o Homem", nas condições as mais aviltantes possíveis. Cena pungente, mas também extraordinariamente simbólica.

Consideremos Adão, criado por Deus como modelo perfeitíssimo do gênero humano. Todos os privilégios sobrenaturais, preternaturais e naturais lhe foram dados em abundância, numa proporção difícil de ser concebida por nós. Era um varão magnífico, digno de admiração por ter sido moldado diretamente pelas mãos divinas. Ao terminar de criá-lo Deus poderia ter exclamado com júbilo: "Eis o homem!"

Os próprios Anjos, quando contemplavam Adão no Paraíso, se encantavam por ver a beleza que Deus nele havia depositado, adornando-o de dons e qualidades, e fazendo-o participar em alto grau da natureza divina. Só lhe faltava um ponto: que aquela graça desabrochasse em glória. E desta vida passaria para a eternidade sem a morte, transformando-se a fé em visão, a esperança em realidade e a caridade estaria consumada por todo o sempre.

A gargalhada do demônio quando deformou o homem

Entretanto, satanás conseguiu, por meio do pecado, fazer desta perfeição de homem um horror. E depois, olhando para Deus, talvez tenha querido referir-se a Adão dando gargalhadas e dizendo: eis o homem!...

Tão repugnantes ficaram Adão e Eva que Deus os expulsou do Paraíso e pôs Querubins à porta para lhes impedir o acesso, porque eram indignos de viver ali (cf. Gn 3, 23-24).

Começa, então, a História de uma humanidade infiel, insubmissa aos ditames de Deus.

A vítima pura e inocente redimiu nossos pecados

No extremo oposto - que oposto e que extremo! -, nessa cena do Ecce Homo encontramos o verdadeiro Primogênito da humanidade, o Novo Adão, este muitíssimo mais perfeito do que o primeiro.

Sua Alma, unida hipostaticamente à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não deixou de estar um só instante na posse da visão beatífica, de forma que não era possível haver alma superior a ela. Santa, nunca se afastara da divindade. Deus agia como ela e ela agia como o próprio Deus. Tampouco podia haver inteligência mais brilhante.

Sua vontade superexcelente aderia a tudo o que o entendimento e a visão beatífica lhe mostravam. E sua sensibilidade puríssima era de uma delicadeza extraordinária.

Qualquer elogio seria insuficiente para Ele, pois era o Homem mais fabuloso da face da terra.

E este Homem o Pai resolve colocar no estado de humilhação em que O vemos agora, completamente desfigurado, "desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos" (Is 53, 3), segundo descreve Isaías na primeira leitura.

Mais tarde, ao longo da Via-Sacra perdeu Ele tanto Sangue que foi preciso alguém ajudá-Lo a carregar a Cruz até o Calvário; e, ao ser nela pregado, podiam contar-Lhe os ossos (cf. Sl 21, 18). Nosso Senhor Jesus Cristo Se apresenta, portanto, como vítima pura e inocente para expiar a deformação produzida no homem pelo pecado.

Sua Paixão nos dá uma noção da gravidade do pecado, que custou ao Homem por excelência, modelo de toda a ordem da criação, tão atroz holocausto: "Se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?" (Lc 23, 31). Tendo sido assim a justiça de Deus sobre o Inocente, que pôs sobre suas costas o peso de nossos crimes, o que nos acontecerá se enveredarmos pelas vias da inimizade com Deus?

Na obra da Redenção a justiça e a misericórdia se osculam

Quando os anjos maus pecaram no Céu, revoltando-se contra Deus - "Non serviam!" (Jr 2, 20) -, houve uma reação imediata e fulminante de São Miguel, sem contemporização nenhuma, que se levantou com toda a coorte celeste e bradou "Quis ut Deus!" a fim de reparar tão grande ofensa e lançar os demônios no inferno. Deus aplicou a justiça contra estes com o máximo rigor.

"Houve uma batalha no Céu: Miguel e seus Anjos tiveram de combater o Dragão. [...] Foi então precipitado o grande Dragão [...] e com ele os seus anjos" (Ap 12, 7.9).

De modo análogo, desde que Adão e Eva pecam, uma cólera terrível se abate sobre eles e, em consequência, passam a viver neste vale de lágrimas. É tremendo cair sob a alçada da justiça de Deus!

Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer de que a justiça e a misericórdia se abraçam e se osculam no altar em que a Divina Vítima é oferecida.

Deste modo, a Cruz não é apenas um trono de justiça, mas também de misericórdia e bondade.
Deus bem poderia ter-nos privado para sempre da participação na natureza d'Ele por causa do pecado, como fez aos anjos rebeldes.

Ele, porém, inverteu a situação, enviando seu próprio Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que, no dizer de Santo Efrém, "quebrou e perfurou a espada do Paraíso".1

Cheio de compaixão, Ele tomou um corpo padecente, com vistas ao martírio, a fim de reparar os pecados do homem e abrir-lhe as portas do Céu, transformando-Se Ele mesmo em vítima da justiça divina.

Só um Deus é capaz disto!

Nenhuma criatura teria forças para chegar a tal extremo. Assim, a vida divina passou a estar ao nosso alcance e hoje, nós, batizados que vivemos na graça de Deus, temos na alma a semente da visão beatífica e nos preparamos para a felicidade eterna.

Por Monsenhor João Clá Dias, EP

................................................


1-SANTO EFRÉM DE NÍSIBE. Himnos sobre el Paraiso, 2, 1, apud ODEN, Thomas C.; LOUTH, Andrew; CONTI, Marco (Ed.). La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia. Génesis 1-11. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.I, p.163

 

 

Católico