Niterói

A VOZ DO PASTOR – A Ele o nosso tudo

Dom-José-A-voz-do-PastorAmados irmãs e irmãos,

Quero hoje falar com vocês sobre o seguimento de Cristo.

Mas para isso é preciso falar antes da irmã liberdade, aquela que por algum motivo – sumamente perdoável – Francisco de Assis esqueceu de incluir no seu Cântico. Nossa irmã Liberdade!

Quando penso nela, penso numa casa colorida.

O que mais chama a atenção na Islândia são as casas coloridas, uma de cada cor. Quando a Islândia era muito pobre, as pessoas compravam a tinta que estava mais barata. Daí cada casa saía de uma cor, um espetáculo que ainda hoje atrai visitantes. Quando penso na liberdade penso em casas coloridas, uma de cada cor. Penso em pessoas coloridas, cada uma com sua cor.

A liberdade é o núcleo fundamental da experiência humana. Sem liberdade não existem pessoas. Sem pessoas não existe seguimento de Cristo. Porque o seguimento de Cristo também é um núcleo fundamental: o núcleo fundamental de quem confia na solução do Evangelho. Em nenhum de nós existe uma ponte natural que ofereça a passagem entre o si e o si mesmo livre. Nós cremos que só o Evangelho oferece essa ponte, essa é a sua solução para o enigma humano.

Mas é preciso entender onde estamos.

A modernidade tardia (até por volta de 1900), a pós-modernidade (depois de Nietzsche), a contemporaneidade (depois dos anos 60), a pós-contemporaneidade (a partir de 2000) e a internet-das-coisas (a que está aí, agora,) marcaram todo um movimento de mudança eufórico e descontrolado. Tudo hoje muda tanto que não há tempo de pensar o que é uma coisa, antes que ela já tenha mudado. Não há tempo para saber quem somos. Tudo muda o tempo todo e somos obrigados a recomeçar sempre do quase zero. O “hoje” sobrevive em permanente estado de “amanhã”.

Novos fatos culturais, políticos, econômicos, novas ideologias, crenças e certezas abalam nossas convicções e nos fazem perguntar se ainda somos os mesmos e se ainda somos livres, se um dia fomos, se um dia seremos. Tudo o que criamos, da carroça ao avião, nos trancou na estreiteza de uma prisão invisível. Não é o caos ficar sem eletricidade ou internet? As criaturas se apossaram do criador de tal forma, que não sobrou senão admitir que o efeito colateral do desenvolvimento foi a angústia. Nunca fomos tão livres; nunca, tão angustiados. A roupa larga da liberdade se tornou o espartilho da ação. Somos livres, mas sufocados. Livres para querer. Sem nunca saber exatamente o que queremos.

Sabemos que queremos seguir Cristo. Esse é nosso Norte e não há outro. Quem coloca a mão no arado, não olha para trás (Lc 9,62). Quem descobre uma estrela, também não olha para trás. Seguir  Cristo é a nossa estrela.

Tanto que 3 dos evangelhos começam justamente com o chamamento dos discípulos.

Na primeira página do Evangelho de Marcos, Jesus chama Simão, André, Tiago e João (Mc 1,16-20). Em seguida, Levi (Mc 2,13) e depois, os doze – para ficarem com ele e enviá-los a pregar (Mc 3,13). O mesmo acontece em Mateus (Mt 4,18s) e em João (Jo 1,35s). O autor do quarto Evangelho capricha no modo como Jesus escolhe um a um, os primeiros acompanhantes da jornada do Reino. Ninguém foi coagido. Tudo era livre, muito livre. Alguns quiseram, inclusive, segui-lo, mas Ele não permitiu. Aos que foram escolhidos, foi oferecida a mais radical escolha: a liberdade de abrir mão de si mesmos.

É importante vocês reterem isso: o seguimento é fundamental. É assim que os Evangelhos entendem o fenômeno chamado Jesus. Os autores de Marcos, Mateus e João, desde a primeira hora, perceberam que não haveria propriamente um Jesus a ser anunciado, se não houvesse um Jesus a ser seguido. O seguimento é fundamental.

Mas há algo ainda mais fundamental nesse seguimento de Jesus, que destoa totalmente do mundo judaico em que o próprio Jesus vivia. Os rabinos também tinham discípulos. Mas nunca se soube que rabino algum tivesse chamado um aluno para segui-lo. Na verdade, era o contrário que acontecia: era o aluno que escolhia o mestre e podia, inclusive, trocar de mestre, se quisesse. E ainda mais: dos alunos dos rabinos esperava-se que fossem servidores de seu mestre.

Com Jesus, tudo é inédito. É Ele quem chama e é Ele quem serve.

Simão e os outros não seguiram Jesus para aprenderem a Lei, mas para serem pescadores de homens, como ele. Não havia um princípio a ser seguido, sequer uma doutrina. Havia alguém a ser seguido. E isso mudava tudo.

Os alunos dos rabinos moravam com o mestre. Jesus, ao contrário, não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Os alunos dos rabinos serviam seus mestres. Jesus, ao contrário, não veio para ser servido, mas para servir (Mc 10,45), para “estar no meio de vocês como aquele que serve” (Lc 22,27). E até o limite do lava-pés. E até o sem limite da cruz.

O que Jesus provoca com essa nova convivência é a diferença de uma nova consciência.

Para que houvesse uma transmissão regrada da tradição, os rabinos e seus discípulos possuíam um centro de ensino fixo, com sustento de vida assegurado. Muitos eram artesãos. Em Jesus, não encontramos nenhuma atividade fixa de ensino. Ao contrário, em seu seguimento, nenhuma situação era fixa, todas eram sempre inusitadas.

O Evangelho era uma novidade desde a raiz, desde o projeto, desde o anúncio. Cada situação era nova, cada penúria era nova, cada noite sem ter onde dormir era novidade, em cada estrada havia caminhos novos e sem fim. O horizonte estava ali, e ao mesmo tempo sempre acolá. Era para isso que ele havia chamado os primeiros Doze. Para esse seguimento-aprendizado junto dele.

No exercício diário de uma convivência sem garantias, não havia como não aprender a perdoar setenta vezes sete vezes (Mt 18,21). De outro modo, que plataforma haveria para a chegada do Reino? A liberdade do Evangelho pregada por Jesus não era uma proposta para o final dos tempos. Era escatológica, sim. Mas já começava ali, onde eles estavam, porque é sempre onde estamos que as coisas começam e podem acontecer.

Daí ser possível entender o pedido do pão apenas para aquele dia, sem se preocupar com o amanhã. A cada dia bastaria o seu peso (Mt 6,34). E a nova comunidade precisava ser leve. Não havia outro modo de ser senão sendo leve.

Daí ser possível entender as bagagens leves, sem bastão nem sandálias. Quem tem bastão, agride. De sandálias, é possível fugir. Mas sem bastão não haveria sequer defesa. Descalço, era impossível correr em terreno pedregoso. Daquele novo jeito não havia como não brotar um sentimento pacificador. Nem bastão nem sandálias nem agressão. Não se tratava de despojamento, como pensam alguns. Tratava-se da Não-Violência, a mesma do Cordeiro, que caminhou silencioso em direção ao matadouro, também sem bastão, também sem sandálias, e sem nenhum sentimento de vingança ou agressão.

Aprenderem juntos já era uma antecipação da Páscoa, já era Páscoa o tempo todo. (E não apenas na temporada dos ovos.) O seguimento de Jesus traz liberdade pascal, sem a qual nem vale a pena nem vale muito e tudo perde a cor.

Estamos ressentidos da falta de cor em nossas vidas. Tudo tem ficado cinza, diferente das casas da Islândia. Quem perde a liberdade descolore, fica cinza, fica feio.

A verdadeira novidade é aquilo que não envelhece, apesar do tempo. A grande novidade do homem é a sua liberdade – núcleo fundamental de sua experiência, essência do si quando abraça o si mesmo.

A grande novidade continua sendo Jesus, sempre novo, sempre eterno.

A Ele a glória e o louvor para sempre. E um pouco mais. A Ele nosso seguimento para sempre. E muito mais. A Ele nossa liberdade para sempre, nossas entranhas, nossa vida, nosso tudo.

Amém.

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói

Católico