Niterói

A VOZ DO PASTOR – Uma noite no oriente

“Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).

 

Minha irmã, meu irmão, queridos de Deus! Feliz 2017!

Todo primeiro domingo de janeiro, após o Natal, recebemos visitas ilustres: três reis magos vindos do Oriente batem à nossa porta. É verdade que muitos estudiosos questionam e dizem que eles não são magos nem reis nem três. Mas assim ficaram conhecidos. E já não conseguimos falar deles senão dizendo que são os três reis magos.

E a historicidade do relato pede alguns ajustes.

A respeito do número três, o primeiro testemunho disso vem de Orígenes, no século III. São João Crisóstomo, por exemplo, fala de doze. Os nomes, como os conhecemos, aparecem num manuscrito do século VI. E vieram de onde? Do Oriente. Mas o Oriente, para os judeus, significava toda terra que se estendesse além do Jordão.

E a estrela? Alguns cogitam algum fenômeno astronômico coincidente com o nascimento de Jesus, mas são meras conjecturas. Se a tal conjunção de Júpiter e Saturno do ano 6 AC, coincide com a data do nascimento de Jesus, o cometa Halley também passou por aqueles dias. Conjecturas!

A fuga de Jesus para o Egito repete o itinerário de Moisés, que foge do faraó e depois retorna ao Egito (Ex 2 – 4). Como se sabe, Mateus escreveu para os judeus da Síria, com a firme intenção de mostrar que Jesus era o Esperado de Israel. Então não há nenhum problema em repetir certos insights que levariam os leitores da época a associar Jesus com Moisés. Quando Jesus retornar do Egito, não estará fazendo outra coisa senão repetir o itinerário do povo de Deus no Êxodo. Em Jesus, filho de Israel, repete-se a história do povo. Além disso, o relato repete 5 vezes que Jesus era de Belém, a terra do rei Davi. Para Mateus, Jesus era o Messias descendente de Davi.

Observem que a narrativa começa e termina falando em adoração: esse é o motivo e o significado salvífico da intenção de Mateus. Jesus é o Deus de Israel: venite adoremus.

“Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).

Por que os magos se puseram a caminho? Ora, porque buscam. São João Crisóstomo diz que eles não se puseram a caminho porque viram a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho. O caminho nem sempre é pavimentado de certezas, mas de perguntas e inquietações, com certeza! Agostinho escreve que os magos são o símbolo dos que buscam. Anunciam e perguntam, creem e buscam, caminham na fé e desejam a realidade.

Assim como os pastores, de Lucas, os sábios de Mateus caminham à noite, inundados de luz: os pastores tomados pela luz dos anjos, os sábios tomados pela luz da estrela. Essa luz que arde no coração é sempre uma luz sem sombras. Mas isso não significa que ela não tenha eclipses parciais ou totais. Há dias e noites, auroras e crepúsculos, a alegria de caminhar e o cansaço do caminho, entusiasmo e desânimo, tempos de consolação e tempos de desolação. Tudo isso os magos experimentaram, porém, com olhos novos.

Para captar os sinais do caminho é necessário um novo olhar.

Para empreender um caminho novo é preciso sair do pequeno mundo em que nos escondemos. Também para nós há Orientes e estrelas. A estrela que orienta nossa busca continua sempre exigindo mais verdade, amor, justiça, mais comunhão. Atravessando a escuridão da noite, da decepção e do sofrimento, ela continua lá, no firmamento da alma, iluminando, sempre, de uma forma ou de outra.

O mundo que iluminamos artificialmente ao nosso redor nos traz a falsa segurança de evitar exigências. Temos razões suficientes, estratagemas aparentes, convenções e modismos. Por isso, abençoados sejam os obstáculos do caminho! Quem diria que um dia se diria isso, mas abençoados sejam até os Herodes! Perto deles, o brilho da estrela se esconde, e isso nos adverte que ela realmente exista.

Por quanto tempo os magos caminharam? Meses? Anos? Não sabemos.

Mas sabemos que caminharam juntos, e que chegaram juntos. “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2). Vimos e viemos, juntos. Esse longo caminho não se faz sozinho nem pode nem consegue ser feito. Muitas perguntas despontarão pelo meio do caminho: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?” (Mt 2,2). Essa é uma delas, a fundamental. Não será por causa dele que caminhamos, seguimos estrelas, e perguntamos como a noiva dos Cantares: “Acaso vocês viram o amado de minha alma?” (Ct 3,3).

Onde estará? Quando o encontraremos?

“Ao entrar na casa, viram o menino e sua mãe” (Mt 2,11).

Na capital do poder, toda Jerusalém está com Herodes; naquela casa, Maria está com Jesus. Pronto! Esse é o encontro. Toda vez que procuramos um, sempre encontramos os dois. Depois de atravessar desertos escaldantes e varar noites açoitadas por ventos, os magos, enfim, o encontram. Longe dos palácios e dos centros de poder, longe das expectativas vãs, eles chegam a uma casa – como talvez a sua – e encontram o Menino e sua Mãe. E ali estava tudo. São João Crisóstomo arremata: A fé dos magos foi mais penetrante que o olhar, porque viram coisas banais e entenderam as mais elevadas.

Depois que encontraram o Menino, os magos não precisavam mais de sinais. Então, a estrela desaparece. Prostrados, eles o adoraram. O longo itinerário da busca terminava ali, na adoração. Quiseram Deus não para tirar vantagens, mas para reconhecê-lo como sua origem e seu fim. E abrindo seus tesouros eles lhe deram tudo. Tesouros é a palavra que se encontra no original grego. Eles não abriram suas mochilas, abriram seus tesouros. Isso faz toda diferença!

E por fim, avisados em sonho para não voltarem ao centro do poder (nem se voltarem para ele), retornaram às suas terras, por outro caminho. Sempre me chamou a atenção a preciosidade desse detalhe: o “outro caminho”. Quem encontra aquele Menino nunca mais será o mesmo, nem que queira nem que insista nem que determine. Esse encontro é tão avassalador para os antigos caminhos, que só resta, depois dele, encontrar novos. Para os magos, depois daquele encontro, todos os caminhos seriam outros caminhos: ainda que pisassem nas mesmas areias do mesmo chão, nenhuma estrada seria mais a mesma.

“Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”.

É de luz que falamos – é luz que nos falta. Mais luz aos pastores, aos magos, a você e a mim. Desejo-lhes, irmãos e irmãs, queridos de Deus, que nesse ano vocês sejam iluminados pela luz do Menino e sua Mãe.

Até hoje, quando estou na minha terra, em todo Natal, eu espero ardentemente que o coral entoe um hino lindo chamado “Uma noite no Oriente”. Desde a aurora da minha vida espiritual aquele hino me acompanha, empurrando-me suavemente para encontrar meus outros caminhos. É o que lhes desejo também, do fundo do coração. Que nesse novo ano cada um encontre seus novos caminhos, na companhia do Menino e sua Mãe.

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói

Católico