Niterói

A VOZ DO PASTOR – Vamos a Belém

Assim que os anjos os deixaram, em direção ao céu, os pastores disseram entre si: “Vamos a Belém, vamos logo, vamos ver o que aconteceu e o que o Senhor nos fez saber” (Lc 2,15).

 

Meu irmão, minha irmã,

Vamos a Belém, mas vamos logo!

Durante os anos de estudo de teologia, no seminário, eu sempre pressenti que havia duas histórias da Igreja: uma, era a da Igreja das catacumbas, outra, a da Igreja das catedrais. Embora imensamente diferentes, elas não se contrapunham, pelo contrário, se completavam. A história das catedrais é a história da instituição e da oficialidade, com seus papas, conflitos, cismas e divisões. Nada que não seja humano, demasiadamente humano, só que dentro da estreiteza humana.

Já a história das catacumbas é a história paralela dos mártires, dos santos e dos místicos, com sua devoção à oração, sua humildade e espírito de sacrifício, sua liberdade e sua alegria, sua ousadia e seu amor profundo, por tudo e por todos. Nada também que não seja humano, demasiadamente humano, mas que, convenhamos, bem além da estreiteza humana.

Encontramos isso nos evangelhos da infância.

Os evangelhos da infância, como são conhecidos os textos de Mateus e de Lucas, que tratam do nascimento e da infância de Jesus, são ricos desse mesmo paralelismo. Eles foram escritos muito tardiamente, como respostas à curiosidade do amor em conhecer as origens de quem se ama. Não é assim? Quando alguém se encontra apaixonado, quer saber tudo que diz respeito a todas as coisas do ser amado. Os evangelhos da infância são a porta dos evangelhos. Mas como na construção de uma casa, as portas são as últimas a serem colocadas, também eles vieram por último. Sobra sempre aquele interesse peculiar e maravilhoso, como quando se abre uma porta de um imenso salão decorado, e não é possível estancar o espanto da admiração.

Em Mateus e em Lucas é possível encontrar o mesmo paralelismo das igrejas de que lhes falei acima. Os dois evangelhos relatam visitas feitas a Jesus menino, visitas que não passariam despercebidas a qualquer olhar atento, e com certeza não passou ao deles.

Mateus conta a visita dos magos. Lucas conta a visita dos pastores.

Os magos são referências da oficialidade: eles vêm de longe, seguem uma estrela, detém-se em Jerusalém, a capital do reino, expõem suas dificuldades a ninguém menos que Herodes, o Grande. Em Lucas, tudo é diferente. Não há estrelas, há anjos. Não há sinais, há evidências. Nada é de fora para dentro, tudo é de dentro para fora: tudo mana do interior, como uma fonte singela que se transforma num fio de água, depois num córrego, depois num rio caudaloso.

A tradição identificou os magos como sendo reis, e assim eles ficaram. Em Mateus, tudo começa com reis. Em Lucas, tudo começa com gente que não tem nem eira nem beira, desqualificados sociais, marginais penalizados com manchas de desconfiança. É que, na época de Jesus, os pastores eram mesmo mal vistos, eram encrenqueiros e causadores de confusão. Vejam! Não é mesmo uma fonte singela e nem tão limpa assim? E não se se transformou num simplório fio d’água e depois num imenso rio caudaloso, que tem banhado civilizações?

Mas afinal, o que tinham eles em comum, magos e pastores?

Ouso dizer que um quê de mística. Os pastores se encontravam na noite de Belém, guardando rebanhos. Os magos perseguiam uma estrela e, dado o fato de não possuírem aparelhos da sofisticada modernidade, com certeza, deslocavam-se à noite, quando é possível seguir estrelas.

A noite é o lugar místico por excelência. Na noite se ouve mais, na noite se percebe mais. A maioria das crianças é gerada à noite, porque a noite é prenhe de vida e de luz. Ela não tem luz. Mas ela guarda a luz. Melhor! Ela aguarda a luz. Não serão as crianças, geradas à noite, por fim, dadas à luz? É sempre de luz que precisamos. A glória do Senhor que cercou os anjos do clarão de luz pertence à mesma luz de que é feito o brilho da estrela dos magos.

Ora, em nenhum momento se disse onde estava aquela luz. Com certeza, não fora, mas dentro deles. O brilho de toda luz é interno. Porque esse brilho é conatural. E quanto mais interno, mais brilhante.

E sejam pastores ou sejam magos, eles só encontraram aquilo que já haviam saído à procura. A condição básica de todo encontro é a busca. A condição básica de toda busca é a certeza do encontro.

É nisso que pastores e magos, a Igreja das catacumbas e a Igreja das catedrais convergem: cada um deles, a seu modo, largo ou estrito, saiu e se encontra à procura. Os magos, com a intuição de que o final da busca os levaria à distante Belém. Os pastores, com a certeza de que o final da busca se encontrava ali mesmo, encostado a eles, a coisa de passos. Por que sempre o final da busca se encontra, ali, a coisa de passos. Só não conte os passos. Diante da eternidade, eles serão sempre apenas alguns.

Segundo a profecia, tantas vezes citada, do teólogo Karl Rahner, ou o cristão do futuro será um místico ou não será nada.

Meu irmão, minha irmã, este é o futuro, o futuro chegou, e já vivemos nele.

Vamos a Belém, mas vamos logo! Não há tempo a esperar, não há muros a escalar, não há nada a protelar. Este é o futuro, o futuro chegou, e já vivemos nele. Vou passar esse Natal repetindo para mim mesmo o que os pastores disseram naquela Noite Santa: Vamos a Belém, mas vamos logo!

A certeza nos garante, a alegria nos empurra, a caridade nos impele a ir a Belém. Onde quer que haja alguém à nossa espera, ali estará nada menos que Belém. Onde quer que alguém nos estenda a mão, ali estará nada menos que Belém. Onde quer que você faça alguma diferença, por menor que seja, ali estará Belém. E lembre-se: Belém está a coisa de passos. E lembre-se: não conte os passos. Diante da eternidade, eles serão sempre apenas alguns.

Vamos a Belém, mas vamos logo!

Levem-me consigo, meu irmão e minha irmã. Eu os levarei comigo na minha ida a Belém. Porque Belém está ali, a coisa de passos. Vamos! Mas vamos logo!

Feliz Natal!

Feliz encontro de toda Belém que repousa no coração humano! Feliz Noite de Natal quando a luz desponta com o clarão de estrelas e de anjos!

A você, meu irmão, minha irmã: meu carinho, minha bênção e minhas preces. Conto com seu carinho, suas bênçãos sobre mim e sua prece caridosa.

Vamos a Belém, sim, mas vamos logo!

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói

 

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