Niterói

A VOZ DO PASTOR – O ouro do sino

Irmãs e irmãos: contaram-me, e eu não pude comprovar a veracidade da afirmação. Mas mesmo assim, se non è vero, è ben trovato: a ideia é boa por si mesma. Disseram-me que o que faz um sino ser bom, o que lhe dá a clareza, a pureza e a suavidade do toque é a quantidade de ouro que foi misturada ao bronze. Um sino bom tem mais ouro que um sino de qualidade mediana.

Pensei nisso quando resolvi lhes falar do final do Ano Santo e da santidade cristã.

Quando o Concílio Vaticano II proclamou que santo não é apenas aquele que mora nos altares, na verdade, o que estava sendo proposto a toda Igreja era um novo paradigma de santidade, um novo modelo da experiência cristã e da própria vida. Dali pra frente, é você que seria o santo, era eu que seria o santo, enfim, nós todos é que havíamos sido chamados à santidade. A grande proposta do extraordinário Concílio Vaticano II era a de que ninguém mais ficasse excluído da santidade. Com isso, abriram-se as janelas da Igreja para entrar o ar novo do Espírito. Mas com isso também, um novo compromisso se impunha aos homens e mulheres de fé: ou seríamos santos ou não seríamos nada. Não haveria mais na Igreja o fiel “sócio de clube”, que apenas paga a mensalidade e usufrui. Ou a Igreja seria uma nova comunidade de fé, esperança e caridade, feita à imagem da Santíssima Trindade, ou ela terminaria vítima de sua própria entropia.

E mais. Depois de alcançar o ouro ainda existe a têmpera ou consistência. Era assim que o Concílio definia a santidade para uma frágil existência humana em busca de sentido. Depois do ouro, ainda existe a têmpera. Quando você vir que alcançou o patamar que almejava, olhe à frente: sempre existe mais, muito mais.

“Eu vim para que todos tenham vida, e tenham vida em plenitude” (Jo 10,10).

Não terá sido essa proposta do Senhor que o Concílio retomou e fez sua para inundar de vida nova a Igreja e o mundo? Isso quer dizer que ninguém será apenas um cristão qualquer a mais; sequer um cristão a mais, apenas. Um santo é o que se espera de quem tenha abraçado essa nova forma de vida. Depois do ouro, a têmpera. O santo é a têmpera do ouro, é a consistência do ouro. A proposta que o Concílio retoma é a do próprio Evangelho: não é para viver uma vida qualquer, mas a vida em plenitude.

E o que é essa vida em plenitude? Parece difícil de explicar, mas não é difícil de constatar.

Visite uma UTI neonatal e preste atenção àquelas crianças: elas estão lutando pela vida. Você verá veias puncionadas em pequenas cabeças carecas, despidas, desde muito cedo, da beleza dos cachos que o mundo espera delas. Você verá abdomens abertos com grandes curativos numa gente miúda, que nem bem nasceu já começa a experimentar a dureza da vida. Observe aquelas crianças. Elas respiram aceleradas, catando todo ar que for possível, absorvendo a vida que nem bem chegada lhes foge, nem bem dada já quer ser tomada. Elas não sabem que já ali participam do Mistério Pascal. E será que se soubessem de tudo o que a vida exige, ainda assim lutariam tanto por ela? A resposta é: claro que lutariam! Nós lutamos! Aquelas crianças são o show da vida. Elas nos querem dizer que, apesar de tudo, de todo limite onde a vida esbarra, de toda dor onde a vida se esquece, mesmo assim, essa coisa a que chamamos vida vale a pena.

“Eu vim para que todos tenham vida, e tenham vida em plenitude” (Jo 10,10).

Se já vale a pena, só por ser vida, imaginem se for vivida em plenitude?

Isso é a santidade. A santidade é a têmpera do ouro, a plenitude da vida, a alegria que não termina depois que a balada acaba, o entusiasmo que não arrefece quando o resultado não chega, o brilho no olhar que não cede lugar à dúvida – faça chuva ou faça sol – ainda que os frutos não sejam doces.

O ouro só alcança a têmpera com muito calor e pancadas sem fim no metal. Esse é o caminho para o ouro, do metal bruto, se tornar eterno. Santidade é isso: é sair da vala comum para ser eterno, em Deus. Eterno é ser mais que a luz do sol. Eterno é ser mais que a têmpera do ouro. Eterno é não morrer.

O segundo semestre é cheio das “celebridades” de Deus: Lourenço, Jerônimo, Francisco, Teresinha, Teresona, como carinhosamente chamam Teresa d´Ávila… Eles foram proclamados heróis da fé. Mas existem muitos outros. Existem os que ainda nem foram conhecidos e os que nunca serão. Há santos caminhando ao seu lado na rua, sentados ao seu lado no cinema e, até, dançando com você na festa. Por que não? Talvez você é quem seja o santo que está do lado do outro na rua, no cinema e na festa. Por que não?

Há uma cena maravilhosa num filme antigo chamado “Agnes de Deus”, em que, sentadas num banco em meio à neve, a madre superiora de um convento e a psiquiatra que vai examinar uma das freiras discutem a respeito da santidade. “Você poderia ser santa, você é boa!” – Diz a psiquiatra à madre. A madre, num suspiro de quem vai conversar sobre têmpera com quem não conhece nem o ouro, responde: “Não é assim. Ser santo não significa ser bom ou não ter defeitos. Os santos tinham defeitos. Mas eles eram muito agarrados a Deus, não largavam Deus por nada. De certa forma, nasceram para ser santos”.

É nisso que reside o segredo da têmpera: não largar Deus por nada. Se baterem, espezinharem, ridiculizarem, se você mesmo duvidar, e ainda assim não largar Deus por nada, o caminho da santidade se abriu. Há santos caminhando a seu lado na rua. Abra os olhos. A têmpera tem o mesmo brilho do ouro. É preciso enxergar. Se você não permitir que ninguém passe invisível a seu lado, você verá. Quem sabe, nesse gesto, você encontre a têmpera do ouro, a consistência da santidade, o segredo da vida, a vida em plenitude.

No próximo dia 20 encerraremos o Ano Santo da Misericórdia. Foi para você um ano de têmpera? Parece ter sido essa a proposta do Papa Francisco.

A quantidade de ouro que você agregou ao seu bronze neste Ano Santo fará seu sino ser muito mais fiel às badaladas do anúncio do Evangelho. É isso que todos queremos e esperamos.

Rezem comigo. Rezo com vocês. E os abençoo com as bênçãos do Alto.

Dom-José-A-voz-do-Pastor

 

+ Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói

 

Católico