Niterói

A FÉ EM QUESTÃO – Se Deus Criador é bom, por que existe tanto mal?

A pergunta que escolhemos como título do nosso artigo deste mês é a continuidade do que escrevemos no mês passado sobre a criação! Sem dúvida alguma, já fizemos essa pergunta ou já a ouvimos. Contudo, surge outra questão: será que sempre temos que encontrar em Deus a reposta para o mal que constatamos? Será que não seria imaturidade da nossa parte querer que Deus nos dê a resposta para tudo? Não fomos criados à Sua imagem e semelhança com inteligência, vontade e liberdade?

A questão sobre o mal sempre foi uma preocupação e uma “pedra de tropeço” ao longo da história bíblica e da história da humanidade, de maneira geral. Tanto é assim, que S. Agostinho se dedicou a escrever uma obra para tentar responder a esse desafio: O Livre Arbítrio (século V). Com essa obra, ficou claro, para o Bispo de Hipona, que Deus não poderia ser a origem do mal, mas sua origem estaria no mau  uso da liberdade. Com isso, Agostinho passou a definir o mal como ausência do bem! Depois, Tomás de Aquino passou a definir o mal como ausência do bem necessário.

Recentemente, ouvimos o relato evangélico intitulado o evangelho do rico e do pobre Lázaro. Um dos questionamentos da parábola evangélica foi a visão deuteronomista, a qual acredita que o mal era fruto do pecado e o bem fruto da fidelidade a Deus. Contudo, a partir de Jó, essa visão é colocada em cheque: como pode um homem justo e fiel sofrer tanto? Depois, com Jesus, sobretudo, essa visão cai por terra: como pode o filho de Deus passar pelo que passou? Por isso, o próprio Jesus responde aos discípulos que o cego de nascença não nasceu cego por culpa do seu pecado ou do pecado dos seus pais, mas assim nasceu para nele se manifestar a glória de Deus (Jo 9).

A reflexão sobre o mal levou à conclusão de uma necessária distinção sobre o mal: mal físico; mal moral; mal natural. Quantas vezes contemplamos o mal de forma equivocada, retirando toda nossa responsabilidade e nossa participação na obra da criação, seja pensando em nós mesmos, seja pensando na obra da criação.

Muitas vezes, podemos perceber o mal como consequência de nossas ações! Tantas vezes somos culpados pelo mal que enfrentamos. Pensemos num diabético, que não deixa de comer açúcar, não faz sua dieta e acaba tendo que amputar um dedo. Será que a culpa é de Deus? Não será ele mesmo o responsável pelo mal que está sofrendo? Pensemos nas grandes enchentes, deslizamentos… Será que temos que culpar Deus, ou querer que Ele responda por esse mal natural? Esse mal não seria fruto do mau cuidado que tivemos com a obra da criação?

Assim, Jesus nos convida a contemplar  o nosso mal inserido no Seu, e percebermos que nada escapa da mão providente de Deus que, mesmo não querendo diretamente o mal, o permite para tirar dele um bem maior (Rm 8, 28), como fez com a cruz do Seu Filho.

Somos convidados, pelo Senhor, a reconhecer que o mal é um mistério e que não podemos compreendê-lo de uma forma exata/matemática como gostaríamos! Por isso, mais do que confrontar  Deus diante do mal, poderíamos reconhecê-lO presente ao nosso lado em todos os momentos, mesmo quando não O percebemos!

Pe. Douglas Alves Fontes douglas

Católico