Niterói

A VOZ DO PASTOR – Para um mundo capaz de cuidar de si

No dia 1º de setembro de 2016, o Papa Francisco lançou sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e nos convida a usarmos de misericórdia para com a nossa casa comum. Sim, é isso mesmo. A palavra é misericórdia, a mesma que o Pai exerce em relação a seus filhos criados. Cuidar da criação não significa apenas promover a justiça ambiental, mas antes a solicitude pelos pobres e o serviço responsável à sociedade. Cristãos ou não, pessoas de fé e de boa vontade, devemos estar unidos, manifestando misericórdia para com a nossa casa comum – a Terra – e valorizar plenamente o mundo em que vivemos, como lugar de partilha e comunhão.

Sim, porque a Terra clama.

Cada pessoa que habita neste planeta precisa ter consciência dos sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Deus nos deu de presente um exuberante jardim, mas nós o estamos transformando numa poluída vastidão de ruínas, desertos e lixo – diz o Papa.  Não podemos render-nos ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade, e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nosso comportamento irresponsável e egoísta. Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos o direito de agir assim.

Observem o tom teológico da mensagem.

Milhares de espécies destruídas não mais darão glória a Deus. Toda a maravilhosa obra da Criação, que deveria refletir a Face do Criador, juntamente com o homem, sua obra-prima, corre o risco de desaparecer, e assim, onde não houver mais adoradores, a Glória de Deus se verá diminuída. Pássaros, peixes, animais, plantas, o homem, tudo quanto o Salmo 8 e o Cântico de Daniel incumbiram de louvar e bendizer o Criador, se forem engolidos pela ganância, deixarão um imenso vácuo de desesperança, abandono e ateísmo. O ateísmo pós-moderno, talvez o mais cruel de todos, não se propaga mais como ideia panfletária. O ateísmo pós-moderno é prático, como tudo em nossa época. Professam o ateísmo todos os que acreditam no acaso e os que naturalizam os ideais, como se não houvesse nenhum nascer-do-sol depois do ocaso.

“Estrelas do céu e todos os poderes, sol e lua, chuva e orvalho, ventos, fogo e calor, frio e ardor, orvalhos e aguaceiros, geada e neve, noites e dias, montanhas e colinas, fontes e mares e rios, peixes e aves, animais todos, filhos dos homens, servos do Senhor, espíritos e almas dos justos, e todos os que adoram o Senhor, louvem e bendigam o Senhor, porque Sua misericórdia é para sempre” (Dn 3).

Não deixa de ser interessante o círculo que o Cântico faz. Ele parte das estrelas do céu e volta às almas adoradoras, cujo centro se encontra no Céu. Esse é o sentido da ecologia teológica. Tudo o que provém de Deus volta a Deus. A menos que por obra do homem, no meio desse caminho, tudo seja destruído e o círculo seja quebrado.

O planeta se aquece. O círculo se quebra. Isto provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos meteorológicos extremos, cada vez mais graves. As mudanças climáticas contribuem também para a crise das migrações forçadas. Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis, e já sofrem os seus efeitos.

Nenhum homem é uma ilha. Todos estamos profundamente ligados, entre nós, e à criação na sua totalidade. Se maltratamos a natureza, maltratamos os seres humanos. Nossa época se esqueceu de que cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco a ser respeitado. O maior pecado é errar o alvo diante do Criador, explorando a Criação de maneira míope e egoísta.

O Papa nos encoraja ao primeiro passo de um exame de consciência, na consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar, com os outros seres do universo, uma estupenda comunhão universal. O homem de fé contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres.

No círculo da Criação, o Pai, cheio de misericórdia e bondade, aguarda o regresso de cada um. Todos nós, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer a nossa contribuição – pequena ou grande – na desfiguração e destruição do ambiente. Reconhecer a quebra do círculo é o primeiro passo no caminho da conversão.

Somos indivíduos acostumados a estilos de vida induzidos por uma cultura equivocada do bem-estar e do desejo desordenado de consumir mais do que temos necessidade. Nosso sistema impôs a lógica do lucro a todo custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza. Nossos pecados contra o Criador são pecados contra a criação e contra nossos irmãos. É hora de mudar de rumo.

Qualquer esforço, ainda que pequeno, pode mudar esse rumo e melhorar o mundo. O que precisamos é cultivar, como cristãos, a nossa especificidade própria, na defesa da Casa Comum. Não somos uma ONG em defesa da natureza. Somos adoradores de um Deus que se manifesta na Obra Criada. É hora de criar um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar a profunda alegria de não estar obcecado pelas ilusões do consumo.

O que seria esse estilo de vida profético e contemplativo?

Seria colaborar para construir uma economia, política, sociedade e cultura que não fossem dominadas pela mentalidade de curto prazo e pela busca dos imediatos e autogratificantes benefícios de toda ordem. É o imediatismo que mata as aspirações da civilização. Reorientar para o bem comum da Casa Comum inclui um novo projeto de tomada de atenção. Quantas vezes, nesta semana, você conseguiu realmente escutar alguém sem sair correndo para o próximo interesse? É o imediatismo que mata as aspirações de nossa alma.

Mudar de rumo implica mudar de estilo.

Isso significa respeitar escrupulosamente o mandamento primordial de preservar a criação de todo o mal, tanto para o nosso bem como para o bem de outros seres humanos. Há uma pergunta que nos pode ajudar a não perder de vista este objetivo: que tipo de mundo você quer deixar a quem o vá suceder, sobretudo a seus filhos, que estão crescendo? Que mundo será aquele que virá depois de você?

Não é hora de perder a esperança. Nunca será hora para perder a esperança. O Papa reza conosco uma oração que considerei tão bela que não pude deixar de colocar aqui:

Ó Deus dos pobres,

ajudai-nos a resgatar os abandonados e esquecidos

desta terra que valem tanto aos vossos olhos.

Ó Deus de amor, mostrai-nos o nosso lugar neste mundo

como instrumentos do vosso carinho por todos os seres desta terra.

Ó Deus de misericórdia, concedei-nos a graça de receber o vosso perdão

e transmitir a vossa misericórdia em toda a nossa casa comum.

Louvado sejais!Amém.

Não é hora de perder a esperança. Nunca será hora para perder a esperança.

No dia de São Francisco de Assis, peçamos por nosso mundo, nossa Casa Comum. E sobretudo, para não perdermos a esperança de ver a Obra da Criação refletir em toda beleza a Face do Criador.

 

Católico