Niterói

A FÉ EM QUESTÃO – Deus é pai?!

Creio em Deus Pai todo-poderoso! Assim começa o credo apostólico professado por nós, a cada domingo, e nas solenidades. Ao mesmo tempo em que cremos e manifestamos nossa fé, dizendo essas palavras, parece que ainda não tomamos consciência, mais profundamente, das mesmas. Diante da nossa vida, do mundo em que vivemos, podemos dizer que temos um Deus que é pai e todo-poderoso? Diante das guerras, dos atentados e do mal em geral, onde está esse Deus? Será que Ele existe ou nos abandonou?

O Catecismo da Igreja católica nos recorda (n. 268) que, de todos os atributos divinos, o único que aparece no símbolo/credo é a onipotência divina e, talvez, seja um dos mais questionadores para nós. Quando dizemos que, para Deus, nada é impossível, parece que estamos diante de um Deus que age como um verdadeiro mágico, que com sua varinha faz o que quer e quando quer. Com isso, não nos damos conta de uma ordem existente na obra da criação realizada por Deus, que é imagem do próprio Deus.

S. Tomás de Aquino (Suma teológica q. 25, a. 3), recordando as palavras do anjo Gabriel a Maria, em Lc 1, 37, nos lembra que o poder de Deus se refere ao possível, por isso Ele pode tudo o que é possível. Exatamente por esse motivo, não podemos pensar um poder de Deus que atue contra si mesmo, contra sua criação. Nosso problema está em pensar uma onipotência intervencionista, na qual Deus, como tirano, agiria como bem Lhe aprouvessse ou, pior ainda, como desejamos que Ele atue.

Em 30/01/2013, Bento XVI desenvolveu uma bela e profunda catequese sobre esse artigo da fé, na qual nos levava a compreender que Deus é onipotente no amor. Quando dizemos essas palavras do credo, manifestamos nossa fé no poder do amor de Deus que entrega Seu Filho a nós. Essas palavras de fé, lembrava o Papa, manifestam um “gesto de fé, de conversão, de transformação do nosso pensamento, de todo o nosso afeto e de todo o nosso estilo de vida.”

Por fim, podemos dizer que professar a fé num Deus que é pai, numa sociedade que perdeu ou está perdendo a figura do pai, não é simples (A inaceitável ausência do pai, de Claudio Risé, Editora Cidade Nova)! Constantemente, precisamos rever nossa imagem do pai e, sobretudo, a imagem que temos de um Deus que é pai. Para isso, não existe caminho melhor do que tomar os santos evangelhos e perguntar a Jesus quem é Aquele a quem devemos chamar de Pai nosso, deixando que Jesus nos mostre o Pai. Ele mesmo disse a Felipe, e diz a nós: “Quem me viu, tem visto o Pai” (Jo 14,9).

Enfim, cabe a nós, homens e mulheres de fé, darmos um passo na maturidade da relação com Deus (A caminho da maturidade na experiência de Deus, de Alfonso Garcia Rubio, Editora Paulinas), e tomar consciência de que temos um Pai que cuida de nós, mas que não nos fez e não nos quer como crianças mimadas e irresponsáveis, que desejam que seu pai faça tudo por elas e, principalmente, conserte seus erros, como um Deus “tapa-buraco” que supre nossas falhas.     Nosso Deus, de fato, é Pai e cuida de nós com um amor profundo, que nos conduz a um caminho de crescimento e confiança, motivando nossa liberdade e responsabilidade. Precisamos dizer a Ele que cremos que Ele é nosso Pai onipotente, mesmo quando estivermos na profunda experiência do mal sem ter um passe de mágica para solucionar o problema, pois o que nos basta é o silêncio orante, e a certeza de que não estamos sozinhos, porque o Pai do céu está conosco e não nos abandonará! Aí, talvez, só conseguiremos dizer: em tuas mãos, eu me entrego!

Creio em Deus Pai todo-poderoso…

Pe. Douglas Alves Fontes douglas

Católico