Niterói

ESPIRITUALIDADE – Vocação como chamado de Misericórdia

Deus chama a cada um, de forma pessoal e intransferível. Chama à vida, à santidade, a um estado de vida, a uma missão específica, inscrevendo na alma de cada filho o sentido genuíno da sua existência, a sua vocação.

Mas, especialmente neste momento, precisamos refletir sobre a vocação sob um outro aspecto: como pensar a vocação neste Ano Santo da Misericórdia? De que forma a vocação de cada um de nós se insere neste contexto da Misericórdia Divina em que estamos mergulhados neste Ano Jubilar? A questão é respondida ao entendermos que toda ação de Deus é sempre permeada de Misericórdia.  Tudo o que Ele faz é por Misericórdia! Ela é como um lastro que acompanha, testifica e explica toda a ação de Deus na vida do homem. Não há nada que Deus faça ou deixe de fazer pelo ser humano em que não haja a Misericórdia como base e fundamento do seu agir. Por isso, a vocação também é um ato de Misericórdia de Deus para conosco. Deus não nos criaria sem nos dar um sentido para viver, algo que explicasse nossa existência, que conferisse razão aos nossos dias. Por isso, Ele nos fez um chamado, preencheu de sentido a vida de cada homem, de cada mulher, e, como se isso não bastasse, nos capacitou com os dons necessários para realizar a missão que ora nos confiava. Mais uma vez, por misericórdia, sempre a Misericórdia!

Não fomos chamados porque tínhamos qualidades, nem porque éramos os melhores, nem, muito menos, porque Deus tinha obrigação de fazê-lo! Não foram nossos próprios méritos que O inspiraram ao nos dar esta ou aquela vocação! Não! Tudo foi gratuitamente! Tudo obra da Graça e da Misericórdia de Deus para conosco!

Um dado a mais podemos descobrir ao entendermos a vocação como chamado de Misericórdia: todos têm uma vocação! Santos ou pecadores, com mais ou menos misérias, não há ser humano que não esteja incluído no plano de salvação de Deus, e que, por isso, não tenha recebido um chamado para aderir a ele, embora nem todos já o tenham descoberto. Jesus afirmou: “não é a justos que vim chamar, mas a pecadores” (Mt 9, 13). Pedro e Paulo entenderam isto perfeitamente. “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador” (Lc 5, 8b), disse Pedro. E Paulo reconheceu o mesmo quando declarou: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou o primeiro” (I Tm 1, 15). E ambos, apesar disto, aceitaram o chamado do Senhor, assumiram suas vocações, tornando-se colunas da Igreja de Cristo. Para Deus não importa o estado em que nos encontra ao nos chamar, mas como acolhemos este Seu chamado e como respondemos a ele dali em diante!

Deus não chama pessoas perfeitas, porque não existe nenhum ser humano perfeito, embora Ele chame todos à santidade. Maria foi a única e exclusiva exceção! Ela, a Cheia de Graça, Vaso das mais belas virtudes, obra prima da criação de Deus! N’Ela nos espelhemos, e, sob a Sua intercessão nos coloquemos, para que, pela Misericórdia de Deus, alcancemos a santidade em nosso cotidiano. A santidade silenciosa das pessoas simples, que experimentam as alegrias e as adversidades, que amam, oram e laboram no escondimento, na vida de todos os dias, mas marcada por uma busca contínua de elevação e de saída de si, de amar sem medida, de se aproximar do Coração de Deus mesmo com todos os desafios e todas as perdas que houverem de sofrer, motivadas pelo desejo irrenunciável de ser de Deus, de tocar o céu, de viver em Deus e para Deus!

Que o Espírito Santo nos convença acerca destas seis verdades sobre a nossa vocação redescoberta à luz da Misericórdia de Deus:

  • Deus chama pecadores;
  • Deus nos chama com nossos pecados;
  • Deus nos chama apesar de nossos pecados;
  • Deus nos chama não olhando apenas nossos pecados;
  • Deus nos chama para ir além de nossos pecados;
  • Deus nos chama por Misericórdia!

Não somos os melhores, mas somos os escolhidos! E só Deus sabe realmente que somos mais do que o pecado que hoje nos desfigura. E quer nos livrar dele, que restaurar a Sua imagem e semelhança em nós, fazendo-nos passar da condição de pecadores perdoados, para nos elevar à condição de pecadores dignificados, nas palavras do Santo Padre na sua Primeira Meditação no Jubileu dos Sacerdotes, em 02/06/16.

Onde e quando se experimenta Deus, o homem que possui o mínimo de consciência reconhece o seu estado de pecador; e só então que o homem se reconhece de verdade e que se torna verdadeiro. Entender que fomos chamados por misericórdia não significa que vamos viver no laxismo, no pecado, na corrupção. Sem conversão não há resposta autêntica ao chamado de Deus. Sem desejo sincero de conversão não se chega até Jesus, não se compreende a tragédia que causa o pecado. Não podemos esquecer que a conversão é a primeira palavra do Cristianismo! E só poderá ser bem pronunciada por aqueles que experimentaram a força de sua fraqueza; mas a força ainda maior da graça do Senhor através de Seu Espírito!Padre-Dudu-Braga

Padre Dudu

Católico