Niterói

ESPIRITUALIDADE – “Misericordiar para ser Misericordiado!”

Padre-Dudu-BragaPassados mais de seis meses do início do Ano Santo da Misericórdia, convém-nos fazer um balanço sobre como o estamos vivendo, e se, de fato, mergulhamos no mistério da Misericórdia de Deus, ou se ficamos na superfície das palavras e dos ritualismos sem raízes profundas.

Há algumas semanas, o Papa Francisco, falando aos Sacerdotes, por ocasião do seu Jubileu, dizia que “é preciso usar de misericórdia, ‘misericordiar’  em espanhol, para receber misericórdia, para ser ‘misericordiado’”. Fórmula simples e clara! Nada mais do que repetimos nas milhares de vezes que rezamos o Pai Nosso, quando pedimos que nossos pecados sejam perdoados na mesma medida que nós perdoamos aos nossos devedores.

Qual tem sido a nossa postura diante desta exigência evangélica? Compreendemos, com o perdão da palavra, que a “moeda” da misericórdia tem dois lados? Temos, por primeiro, conjugado o verbo “misericordiar” na primeira pessoa, para então conjugá-lo na segunda e terceira pessoas? Esta deve ser a conjugação da vida de cada cristão! Dar misericórdia para receber misericórdia! Ser agente da misericórdia, antes de pretender ser alvo da Misericórdia de Deus e do próximo! Porque, na verdade, Ele já usou de misericórdia por primeiro para conosco, quando a encarnou no Seu próprio Filho Jesus Cristo, o Rosto da Misericórdia do Pai.

Falando em termos mais práticos, este Ano Santo já nos serviu para rever e curar aquele reduto de mágoa que talvez guardemos em nosso coração? Se ainda é possível, fomos ao encontro daquela pessoa que nos magoou para dizer que a perdoamos, ou daquela outra a quem ferimos para pedir o seu perdão? “Vai, reconcilia-te com teu irmão, e depois, vem e apresenta a tua oferta” (Mt 5,24).

Este Ano Santo já nos motivou a procurar mais vezes o confessionário? A nossa confissão se elevou em qualidade, em verdadeira contrição e sincero desejo de conversão?

Nas pequenas desavenças do dia a dia, temos sido mais pacientes, mais compreensivos para perdoar o próximo? E temos sido mais humildes, para reconhecer os nossos erros e pedir que perdoem as nossas faltas?

Ainda estamos julgando o irmão precipitada e impiedosamente? Misericórdia, Senhor! Ensina-nos! Lembra-te de que a mesma medida que usares te servirá também!

E como anda a nossa prática das Obras de Misericórdia? Temos tido muitas ocasiões para praticá-las. Com a ajuda da graça de Deus, muitos já foram despertados para serem agentes dessa misericórdia, que, muito mais do que sofrer pela dor do outro (o que seria apenas sentir “pena”), dá um passo adiante para amenizar o sofrimento do outro com ações concretas. O desemprego acentuado, o frio intenso que há muito tempo não sentíamos, tantos dos nossos irmãos passando por enfermidades, tudo isto é ocasião de irmos ao encontro para ajudar de algum modo. Com alimentos, com agasalhos, com apoio afetivo e espiritual, com iniciativas de ajuda financeira, com nossas orações, enfim, há sempre um bem possível a ser feito por aquele que não é indiferente ao sofrimento alheio, que não foi anestesiado e adormece enquanto tantos adoecem no corpo e na alma.

Ainda há tempo de “misericordiar”, sempre é tempo! Porque, dia após dia, somos todos “misericordiados” por Deus! Enquanto vivermos, somos, ao mesmo tempo, alvos e canais da Misericórdia de Deus. Quem entendeu isto descobriu o verdadeiro sentido da vida!

O Ano da Misericórdia, ao menos cronologicamente falando, há de terminar, mas Deus nunca esperou que fôssemos misericordiosos como o Pai somente neste Ano Jubilar. Esse tempo de graça que estamos vivendo com a Igreja é, antes, ocasião de despertar as consciências, de nos autoavaliarmos sobre como estamos vivendo o mandamento do amor, e, enfim, do início de um novo estilo de vida mais aberto aos outros, mais próximo das suas dores, mais pró-ativo na prática do bem. Um estilo de vida segundo o Evangelho! Um Evangelho que sempre é novo e traz novidade. na medida em que se encarna na vida de cada um que o acolhe, o assume e o pratica. Na vida de todos os dias, simples, ordinária, mas, extraordinariamente, marcada pela descoberta de que há mais alegria em dar do que em receber!

Que o Espírito Santo desperte as consciências adormecidas! Que sejam inspiradas por Ele muitas iniciativas para o bem, pelo amor! Que, enfim, possamos compreender que seremos julgados pelo amor, e que para Deus mais importa o quanto de amor colocamos em tudo o que fazemos.

Somos filhos de Deus! Esta é a nossa identidade cristã! E, como filhos, podemos amar como Ele nos amou, por inteiro, sem medidas, até o fim e para sempre!

Padre Dudu

Católico